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Gestão do Conhecimento

Aspectos Conceituais e Estudo Exploratório Sobre as Práticas de Empresas Brasileiras

José Cláudio C. Terra
Tese defendida na Escola Politécnica da USP para obtenção do título de Doutor em Engenharia de Produção, 26/03/1999

2. A importância do conhecimento como recurso econômico e seu impacto sobre as organizações

Este capítulo procura, a partir da análise de vários trabalhos recentes, destacar algumas das principais transformações que estão ocorrendo nos cenários econômico, empresarial e tecnológico e discutir as implicações para as organizações, para os países e, em particular, para o Brasil e suas empresas. Neste sentido, divide-se esta discussão em três grandes blocos:

2.1 Transformações no ambiente econômico mundial e o avanço tecnológico:
busca-se, aqui, apresentar alguns argumentos, evidências e estatísticas a respeito da importância do conhecimento e da qualificação profissional como recurso econômico. Além disso, discute-se, em particular, a evolução da indústria de informática e sua influência nos vários setores da economia.

2.2 Reflexões sobre algumas estatísticas e tendências recentes no Brasil:
nesta parte, procuramos discutir alguns dos desafios colocados às empresas brasileiras a partir da análise de vários indicadores e estatísticas. É discutido, em particular, o impacto da recente abertura econômica em alguns setores da economia, com destaque, mais uma vez, para o setor de informática. À guisa de uma reflexão final são apresentadas, também, algumas estatísticas sobre educação, qualificação profissional e investimentos em P&D no país.

2.3 O conhecimento e a capacidade de inovação como determinantes da competitividade empresarial:
por fim, à luz dos cenários apresentados nos itens anteriores, são discutidos, preliminarmente, alguns dos temas objeto deste trabalho, como: o desafio da gestão de "knowledge workers", do aprendizado organizacional e da participação e contribuição intelectual dos trabalhadores; o conhecimento como vantagem competitiva; os novos desafios organizacionais.


2.1 Transformações no ambiente econômico mundial e o avanço tecnológico

Dividimos este capítulo em duas partes. Na primeira parte, apresentamos algumas evidências do crescente impacto econômico do conhecimento para as empresas e países. Na segunda parte, focamos um pouco mais nossa análise nas indústrias de informática e telecomunicações em função da considerável importância destes setores, tanto em termos de sua participação na economia, como em função da influência que eles exercem nos demais segmentos econômicos.

2.1.1 Crescente importância do conhecimento como recurso econômico

Vivemos um momento de importante transição do ambiente econômico, onde a gestão pró-ativa do conhecimento adquire um papel central para a competitividade tanto das empresas, como dos países. Isto, entretanto, nem sempre foi assim, pois, no passado, vantagens de localização, assim como o acesso à mão-de-obra barata, recursos naturais e ao capital financeiro tinham papéis muito mais determinantes. Analisando, pois, o trabalho de Thurow (1997), "O Futuro do Capitalismo", conseguimos selecionar vários dados e argumentos que corroboram as afirmações acima:

  • entre as doze maiores empresas americanas do início do século, dez eram empresas baseadas em recursos naturais; apenas uma dessas empresas sobreviveu até o final do século, a General Electric;
  • antes da primeira guerra, a Inglaterra empregava mais de 1 milhão de trabalhadores em suas minas de carvão (6% da força de trabalho do país); hoje, menos de 30 mil pessoas trabalham nestas mesmas minas;
  • no final do século XIX, países ricos em recursos naturais, como Argentina e Chile, eram ricos, enquanto países sem aqueles recursos, como o Japão, estavam destinados a ser pobres;
  • corrigida a inflação geral, os preços dos recursos naturais caíram quase 60% entre meados dos anos 70 e meados dos anos 90;
  • com o desenvolvimento de um mercado de capitais, não existe mais país rico ou pobre de capital, quando se trata de investimentos; fábricas intensivas em capital podem ser construídas em qualquer parte do globo, desde que faça sentido dentro da lógica empresarial (Pfeffer (1994) destaca que o investimento externo direto no mundo cresceu de US$ 112 bilhões para US$ 1, 023 trilhão entre 1967 e 1987);
  • as decisões de localização dos investimentos industriais, principalmente pelas empresas multinacionais, têm dependido, cada vez mais, da existência de uma mão-de-obra qualificada;
  • os trabalhadores de fábricas costumavam ter baixíssima qualificação no início da industrialização; hoje, nos E.U.A., cerca de 16% já possuem alguma educação de nível superior e 5% chegam a se graduar.
  • em 1990, o Ministério do Comércio Internacional e da Indústria do Japão elaborou uma lista dos setores de crescimento mais rápido nos anos 90 e início do século XXI: microeletrônica, biotecnologia, indústrias da nova ciência de materiais, telecomunicações, fabricação de aviões civis, máquinas operatrizes e robôs, e computadores (hardware e software); todos setores "cerebrais" que poderiam estar localizados em qualquer parte do planeta;
  • estudos recentes têm mostrado que as taxas de retorno sobre investimentos em qualificação são mais do que duas vezes maiores que aquelas obtidas em investimentos em fábricas e equipamentos;
    • estudo recente mostra que, cada ano adicional de estudo, implica em um aumento de produtividade de 8,5% no setor industrial e 13% no setor de serviços (The Economist, sept. 1996, pág. 12).

Hope & Hope (1997), por sua vez, destacam a crescente importância do conhecimento na economia através de uma análise do chamado setor high-tech nos Estados Unidos:

  • este setor já é responsável por 5,5% do PIB americano;
  • enquanto o setor tem crescido a uma taxa de 25% ao ano, o restante da economia americana tem crescido a uma taxa de apenas 1,5% ao ano;
  • entre 1994 e 1996, o setor high-tech foi responsável por 40% do crescimento do PIB americano;
  • os preços neste setor vêm caindo a uma taxa anual de 10%.

No campo dos cáculos macroeconômicos, é importante se observar que o conhecimento e a tecnologia começam a ter grande destaque. Até bem pouco tempo atrás a tecnologia era considerada um fator dado de produção ou embutida nos fatores tradicionais, capital ou trabalho. Com a conhecida contribuição de Solow, o cálculo do "resíduo", passou-se a considerar a tecnologia como um fator explícito de produção, que explicaria entre 0,1% e 0,5% do crescimento econômico. Estudos mais recentes de Kuznet e Solow mostram, entretanto, que, nos anos 90, a inovação tecnológica tem sido responsável por cerca de 70% do crescimento econômico e, talvez, por entre 80% e 90% dos ganhos de produtividade (Quinn et alii, 1997).

Uma outra perspectiva de análise que reforça a importância do conhecimento na economia é a da comparação do valor patrimonial com o valor de mercado das empresas. Este último tende a ser muito maior que o primeiro, devido ao valor dos ativos intangíveis (patentes, marcas etc.). Estes, por sua vez, tendem a ter uma importância muito maior em setores baseados no conhecimento, como o setor farmacêutico, confrontado com outros setores, como o imobiliário (quadro 1).

Quadro 1: Valor Global de Mercado e Ativos Intangíveis - Abril 1995


Fonte: Morgan & Stanley Capital International World Index; in Sveiby (1997)

Zuffo (1997), Cohen (1998), Landes (1998) e Stewart (1998), por sua vez, alertam que o conhecimento tem implicações morais, políticas e econômicas. Cohen, em particular, argumenta em seu livro, The Wealth of the World and the Poverty of Nations, que a atual terceira revolução industrial e a educação em massa estão, paradoxalmente, intensificando a exclusão das camadas menos privilegiadas da população, tanto nos países desenvolvidos, como nos países em desenvolvimento.

Já segundo Stewart, a desigualdade de renda, por exemplo, estaria aumentando, em grande parte, em função do impacto do conhecimento. Algumas pesquisas, nos E.U.A. , estariam mostrando que cada ano de estudo implica em um aumento de 2,8% nos salários e que a diferença de salários entre universitários e não universitários também está aumentando. Em 1979, esta diferença era de 49%, enquanto em 1993 era de 80%. Além disso, algumas estatísticas do Departamento Nacional de Padrões dos E.U.A. mostraram que os operários de produção que, em 1900, representavam 73,4% dos trabalhadores, passaram a representar apenas 34,2% em 1980, enquanto que os trabalhadores administrativos, técnicos e profissionais liberais passaram de 17,6% para 52,1%, no mesmo período. Quinn et alii (1997) destacam, por sua vez, projeções que estimam que, no ano 2.000, 85% de todos os empregos nos E.U.A. e 80% daqueles na Europa serão intensivos em conhecimento, software e tecnologia e que na Alemanha, no ano 2010, apenas 10% dos empregos estarão concentrados no setor manufatureiro.

Estas estatísticas, cremos, corroboram recente posição de Fernando Chaparro (1998), que argumentou que vivemos em uma Sociedade do Conhecimento, na qual a posição de cada indivíduo depende, de forma crescente, do produto de conhecimento que ele tenha logrado desenvolver ou construir ao longo de sua vida e que, como conseqüência, corremos o risco de que os processos de exclusão social venham a ter um elevado impacto, como já estariam demonstrando as crescentes desigualdades entre setores sociais, entre regiões de um mesmo país e, principalmente, entre países.

2.1.2 Impacto da indústria de informática e telecomunicações

Cabe destacar, especificamente, o crescente impacto que a revolução baseada no sílicio tem tido no ambiente econômico e nas organizações. No mundo todo existem, atualmente, mais de 200 milhões de computadores e mais de 15 bilhões de chips instalados em diversos tipos de máquinas e equipamentos (revista Fortune 29/04/98). Várias das maiores e mais influentes empresas do mundo são empresas baseadas nos desenvolvimentos da indústria de informática, cuja influência já se estende por todos os setores da economia em, praticamente, todos os lugares do planeta e fora dele também.

Seaberg (1997), por exemplo, destaca que o valor de mercado das empresas, no setor de informática, nos E.U.A., subiu de US$ 110 bilhões para US$ 560 bilhões, entre 1980 e 1997. Zuffo (1997), por sua vez, destaca que em um automóvel típico o valor dos produtos eletrônicos embarcados atingirá cerca de US$ 1.000 no ano 2000 e cerca de US$ 3.000 no ano 2010 a dólares de 1995.

Já Stewart (1998) ressalta que, em 1991, nos E.U.A., o valor dos investimentos em telecomunicações e informática (US$ 112 bilhões) ultrapassaram, pela primeira vez, os investimentos tradicionais em equipamentos industriais (US$ 110 bilhões). Dez anos antes, estes últimos correspondiam a mais de duas vezes o volume de investimentos dos primeiros.

Os dados acima corroboram, pois, recente conclusão de trabalho do IPEA (1997, pág. 161): "No âmbito do processo de intensificação da mudança tecnológica, a importância e os impactos das tecnologias de base eletrônica são totalmente reconhecidos e não há necessidade de ênfase." Este mesmo estudo, entretanto, elabora três características dessas tecnologias:

  • a incorporação de produtos eletrônicos em outros produtos, processos e sistemas organizacionais requer o envolvimento direto do usuário no design e no desenvolvimento tecnológico, o que confere vital importância ao conhecimento tácito dos usuários (estaremos discutindo, em detalhe, o conceito de conhecimento tácito no capítulo 3);
  • estas tecnologias envolvem, crescentemente, sistemas e networks, o que faz com que sua difusão traga benefícios crescentes a todos os usuários e não apenas aos adotantes marginais, isto é, os ganhos da utilização das tecnologias de base eletrônica crescem mais que proporcionalmente, a partir de crescentes graus de integração de sistemas (discutiremos este aspecto, logo a seguir, em mais detalhe, com base no trabalho de Kelly, 1997);
  • a tecnologia eletrônica é um poderoso instrumento para gerar inovações e mudanças tecnológicas, pois permite não apenas mudanças mais rápidas e freqüentes no design de produtos e processos, mas também proporciona exploração muito mais intensiva e extensiva de opções de design (ex1: CAD, ex2: exploramos um outro exemplo deste potencial multiplicador, em detalhe, no setor farmacêutico, na seção 4.4).

Para Zuffo (1997), acabamos de entrar na "Infoera" e esta é a última das eras, pois a "própria condição da crescente taxa de mudanças virá a ser a marca característica desta nova era, obstacularizando (sic) pela perenidade de sua natureza mutante a existência de novas eras" (pág. 14). Exageros à parte, tal autor, acreditamos, compila e resume importantes tendências que estarão sendo proporcionadas pelos avanços na informática:

  • Em cerca de uma década a potência do supercomputador de hoje passará a ser a potência do computador de mesa;
  • Entre as características a serem incorporadas aos microcomputadores até 2010 encontram-se: reconhecimento e síntese de voz, inteligência artificial, grande capacidade de processamento de imagens, supervisão doméstica, criação de imagens sintéticas, comunicação por voz e por olhar etc;
  • A atual evolução baseada no silício deverá se manter veloz pelo menos até o ano 2010. A partir daí, novos materiais cristalinos, formando compostos semicondutores ainda mais complexos, passarão a assumir o controle da evolução tecnológica na área;
  • Em pouco tempo, mesmo os microcomputadores pertencentes a pessoas físicas estarão, na sua maior parte, conectados a redes sofisticadas de comunicação de dados;
  • As redes de comunicação de dados possibilitarão também o crescimento rápido do trabalho no lar, de firmas individuais e de trabalho autônomo;
  • A educação tenderá a ser individualizada, personalizada e disponível remotamente;
  • Num mundo onde a quantidade de informações já desenvolvidas é extremamente alta, a capacidade de localizá-las e adaptá-las a novas situações é fundamental. A criatividade e a busca de novidades serão altamente valorizadas;
  • Os novos empregos exigirão pessoal com nível de instrução muito elevado e discernimento suficiente para operar sistemas complexos;
Tais fenômenos têm levado alguns autores, como Tapscott (1996), Hagel & Armstrong (1997) e Kelly (1997), a dizerem que mesmo este conceito de Era da Informação, introduzido, inicialmente, por Alvin Tofler, já estaria sendo superado por conceitos baseados no poder de comunicação da rede. Kelly, por exemplo, em seu exploratório e inovador artigo, New Rules for the New Economy, argumenta que estamos entrando na Era da Comunicação ou da Economia de Rede - Network Economy.

De fato, há pouco menos de uma década seria, por exemplo, absolutamente proibitivo para uma empresa multinacional interligar todos os seus milhares de funcionários ao redor do mundo através de uma rede corporativa. Hoje, com a massificação da Internet, isto é muito simples e barato. A conseqüência disto e de outros avanços tecnológicos, destacados acima, para os modelos de gestão das empresas do terceiro milênio ainda estão começando a se manifestar e ser analisados4.

Segundo Kelly, a Era do Computador e da Informação nos permitiu fazer as coisas de maneira mais rápida. A Era da Comunicação, por sua vez, seria o resultado de duas outras tendências (além da contínua aceleração da capacidade de processamento dos computadores): a crescente conexão de todos os computadores - em grande parte devido à Internet - e o exponencial crescimento da capacidade de banda para comunicação. Este estaria triplicando, a cada ano (Gilder's Law), trazendo os custos assintoticamente próximos a zero, como no caso da telefonia local básica nos E.U.A. Como conseqüência, vários paradigmas econômicos e organizacionais estariam emergindo. Neste sentido, vários argumentos são arrolados:

  • O conceito de produtividade deveria mudar para tratar do seguinte paradoxo: apesar dos enormes avanços tecnológicos, a produtividade geral da economia e, particularmente, do setor de serviços, não estaria crescendo de maneira substancial. O argumento é que, na nova era, o importante não é como produzir mais e melhor, e sim o que de novo deve ser feito.

  • Mudou-se radicalmente o valor da escassez e da abundância. Segundo antigos paradigmas, quanto mais escasso um produto, maior o seu valor. Na Economia baseada em rede, quanto mais abundante um produto, maior o seu valor. Este seria o caso de vários produtos informáticos que criam valor para suas empresas, mesmo sendo distribuídos gratuitamente. Assim, foi o caso do fax. Embora inventado na década de 60, após enormes investimentos em P&D, e de ter representado um significativo avanço, o valor de um fax permaneceu próximo de zero por muitos anos: os primeiros usuários não tinham ninguém com quem se comunicar.

  • O conceito de economia de escala estaria sendo suplantado, em muitos casos, pela "lei dos retornos crescentes". Nas palavras de Kelly (1997):

      The law of increasing returns is far more than the textbook notion of economies of scale. In the old rules, Henry Ford leveraged his success in selling cars to devise more efficient methods of production. This enabled Ford to sell his cars more cheaply, which created larger sales, which fueled more innovation and even better production methods, sending his company to the top. While the law of increasing returns and the economies of scale both rely on positive feedback loops, the former is propelled by the amazing potency of net power, and the latter isn't. First, industrial economies of scale increase value linearly, while the prime law increases value exponentially. (pág. 72)

      In the future, cotton shirts, bottles of vitamins, chain saws, and the rest of the industrial objects in the world will also obey the law of plenitude as the cost of producing an additional copy of them falls steeply, while the value of the network that invents, manufactures, and distributes them increases. (pág. 70)

  • O sucesso das empresas se torna mais dependente de uma rede de associações com outras empresas. Se, de um lado, Kelly enfatiza os conceitos de regiões competitivas desenvolvidos por Porter no seu clássico trabalho "A Vantagem Competitiva das Nações" e o de integração total com fornecedores, desenvolvidos pela Toyota, de outro lado, ele os amplia ou mesmo os questiona, por meio do destaque conferido às redes virtuais. Estas estariam retirando os limites naturais, impostos pela distância geográfica, ao permitir que pessoas e empresas, em diferentes partes do mundo, trabalhem em conjunto, em tempo real (voltaremos a tratar este assunto na seção 4.4).

As consequências destas mudanças para as organizações, segundo Kelly, são que se aceleram a taxa de criação e mortalidade de empresas, ao mesmo tempo que a inovação e a renovação de habilidades e desenhos organizacionais tornam-se uma constante necessidade para a sobrevivência. Já para os trabalhadores, as consequências seriam a valorização do inovativo, do original e do imaginativo e a desvalorização da repetição, das cópias e da automação.


2.2 Reflexões sobre algumas estatísticas e tendências recentes no Brasil

Fazemos, nesta parte do trabalho, algumas macro-análises semelhantes às realizadas nas duas seções anteriores, mas focalizando apenas o Brasil. Também aqui, verifica-se que o recurso "conhecimento" vem aumentando aceleradamente sua importância para o desempenho empresarial e que os desafios impostos pela relativa e recente abertura econômica tornam a questão da gestão do conhecimento ainda mais fundamental para as empresas brasileiras. Como pretendemos salientar e ilustrar nesta seção, acreditamos que sem estratégias empresariais, setoriais e nacional muito bem concatenadas e, rapidamente implementadas, fica muito difícil imaginar que as empresas brasileiras conseguirão se tornar competitivas e, mesmo, sobreviver aos desafios impostos pela competição internacional.

O modelo econômico de substituição de importações, adotado até recentemente pelo Brasil, privilegiava o "aprender ao operar". A abertura econômica e a competição interna e externa com empresas de países desenvolvidos, contudo, tornam outras formas de aprendizado muito mais relevantes e requerem uma reversão nas tendências de estagnação dos gastos públicos em C&T e de falta de cooperação entre as instituições de pesquisa e o setor público, além de um aumento nos gastos de P&D privados ainda muito baixos. (Fleury & Fleury, 1995; IPEA, 1997)

Buscando corroborar as afirmações acima sobre a magnitude do desafio brasileiro, estaremos apresentando, nesta seção, várias evidências encontradas em diversos estudos e bases de dados, que mostram que a relativamente recente abertura econômica vem impondo importantes desafios às empresas brasileiras e aumentando a necessidade do investimento em tecnologia, em educação e da gestão do conhecimento, de maneira geral.

Neste sentido, iniciamos nossa análise procurando qualificar e quantificar a famosa frase "ambiente dinâmico e turbulento" no cenário empresarial brasileiro. Assim, verificamos que das 500 maiores empresas na lista da Revista Exame, em 1975, apenas 52% ainda constavam desta mesma lista em 1985 e apenas 32% dez anos depois, em 1995. Esta mesma análise, mas iniciada em 1985, mostra que esta turbulência empresarial parece estar aumentando. Apenas 243 empresas, ou seja 49%, ainda constavam na lista em 1995 (anexo 1).

As importações totais do Brasil cresceram cerca de 226% entre 1990 e 1997, enquanto as exportações, no mesmo período, cresceram apenas 54 %. Além disso, em vários setores, o crescimento das importações foi ainda muito maior, com aumentos entre 10 e 20 vezes, em termos de valores absolutos, apenas entre 1992 e 1997. Estes são, portanto, alguns dos principais setores da economia que, conseqüentemente, tiveram maior necessidade de se reestruturar nos últimos anos (anexo 2).

A perda de participação do capital nacional no total do faturamento das 500 maiores empresas privadas também é outro fato marcante neste cenário. Estas, que atingiram um pico de participação de 59,6% em 1986, vêm perdendo participação, de forma mais acentuada, nos anos 90 e chegaram a um total de 52,7% em 1997. Embora não tenhamos feito uma análise mais detalhada, existem importantes evidências de que esta perda de participação venha ocorrendo, principalmente, pela venda de controle acionário para empresas estrangeiras (anexo 3).

Uma análise setorial, por sua vez, mostra, que nos últimos vinte anos (anexo 4):

  • os setores de transformação (confecções e têxteis, automobilístico, material de construção, mecânica, plásticos e borracha) estão perdendo importância no faturamento total;

  • os setores de confecções e têxteis, que têm o menor valor adicionado por empregado (US$ 24 mil frente a uma média de US$ 71 mil - dados de 1997), dimininuiram pela metade sua participação. Além disso, são os únicos setores onde se observa que o capital estrangeiro, antes significativo, praticamente deixou de participar;

  • os demais setores da indústria de transformação, que chamamos de alto valor agregado para contrapor aos setores de confecções e têxteis, também perdeu participação na economia. E as empresas de capital nacional, que já foram responsáveis por até 34% do faturamento em 1984, representavam apenas cerca de 12% apenas do faturamento combinado das empresas de todos estes setores;

  • os setores que mais aumentaram sua participação de mercado foram os que denominamos de bens de consumo (higiene e limpeza, bebidas e fumo) e o agrupamento que chamamos de indústrias do conhecimento (farmacêutica, computação e eletroeletrônicos). A participação do capital nacional no setor de bens de consumo e nas indústrias do conhecimento, embora bem maior do que na década de 70, vem caindo, significativamente, desde a abertura econômica dos anos 90;

  • em outros setores, como o de construção, indústrias de processo (química e petroquímica, papel e celulose, siderurgia e metalurgia) e agroindustrial, as alterações em termos de participação de mercado, inclusive quanto à participação do capital nacional, não foram tão significativas, à exceção de uma relativa perda de participação do capital nacional no setor agroindustrial (de um máximo de 85% em 1984 para 63% em 1996).

  • segundo dados do Banco Central, a participação do capital estrangeiro no setor bancário, medida em termos de ativos totais, subiu de 10,42% em junho de 1995 para 24,75% em junho de 1998.

Corroborando a análise acima, feita a partir dos dados da revista EXAME, vários outros estudos e indicadores também mostram que os setores baseados no conhecimento, como é o caso do eletro-eletrônico e de informática, em particular, terão um peso, cada vez maior, na economia (anexo 5).

O complexo eletro-eletrônico, por exemplo, viu seu faturamento aumentar de cerca de US$ 20 bilhões em 1990 para ao redor de US$ 35 bilhões em 1996, a despeito de um crescimento de 293% na concorrência de importados, que saltou de US$ 2,8 bilhões em 1990 para US$ 11,0 bilhões em 1996. Os setores de utilidades domésticas (139%), de informática (103%) e o de telecomunicações (80%) foram os que mais cresceram.

O setor de informática, em particular, dobrou seu faturamento no período, saindo de US$ 7,1 bilhões em 1991 para US$ 14,1 bilhões em 1997, com grande destaque para os setores de software e serviços técnicos. Houve, ainda, um vertiginoso aumento dos investimentos do setor em P&D (106%), modernização e ampliação (90%) e treinamento (88%), o que fez com que a soma destes saltasse de US$ 553 milhões em 1991 para US$ 1,1 bilhão em 1997.

Com isso, apesar de uma baixa difusão da informática no país, quando comparada a outros países do primeiro mundo, o número de computadores instalados no país aumentou três vezes entre 1993 e 1997, subindo de 1,6 milhão para 5,0 milhões, enquanto o número de registros anuais de programas de computador aumentou de 104 em 1990 para 377 em 1997.

No Brasil, a explosão da Internet também é bastante evidente. Segundo dados da Associação Brasileira de Provedores de Internet, no final do segundo semestre de 1998, já contávamos com mais de 2,0 milhões de usuários (em janeiro de 1996, contavam-se menos de 200 mil usuários) e a movimentação financeira em torno desta indústria - equipamentos, serviços, comércio eletrônico, receita de acesso - já se aproximava da casa de US$ 1 bilhão anuais. O site mais visitado do Brasil, o do Universo On Line - www.uol.com.br - já reportava, por sua vez, mais de 6 milhões de páginas vistas - page views - e 800 mil visitas por dia!

Existem evidências, por outro lado, de que a produtividade do trabalho nas empresas brasileiras, embora ainda bem abaixo daquela de empresas do primeiro mundo, voltou a crescer rapidamente. Em recente estudo, que envolveu macro-análises e estudos de casos detalhados, elaborado pela empresa de consultoria McKinsey & Company (1998), buscou-se compreender a evolução passada, a situação atual em relação a outros países e as possibilidades de evolução da produtividade do trabalho no Brasil. Alguns dos pontos destacados e conclusões foram as seguintes:

  • Entre 1960 e 1995, a taxa de crescimento do PIB per capita brasileiro foi de 2,6% (4,5% entre 1960 e 1980 e 0,0% entre 1980 e 1995), enquanto, no mesmo período, as taxas obtidas pelo Japão e Coréia foram, respectivamente, 4,8% e 6,8%.

  • O baixo PIB per capita brasileiro (equivale a 23% do americano medido em poder de paridade de compra) é resultado tanto da baixa produtividade da mão-de-obra (22% da americana), como do baixo estoque de capital (14% do americano).

  • Os setores intensivos em mão-de-obra são os que apresentam níveis mais baixos de produtividade. Vários setores têm apresentado elevadas taxas de crescimento da produtividade nos anos 90 (quadro 2).

  • A principal conclusão do estudo foi a seguinte:

      "No Brasil, os atuais hiatos de produtividade nas empresas ocorrem, principalmente, por conta da ausência de práticas organizacionais avançadas e de poucos investimentos em tecnologia. Essa deficiências são causadas por uma combinação de fatores, como a instabilidade macroeconômica da década de 80 e início da de 90, e as distorções decorrentes da regulamentação nos mercados de produtos e capitais, que reduziram a pressão competitiva. Contudo, a remoção de barreiras nos mercados de produtos e capitais no início da década de 90 e a estabilização macroeconômica a partir de 1994 têm contribuído para um rápido aumento da produtividade em muitas indústrias" (págs. 5 e 6).

Quadro 2: Comparação da produtividade5 do trabalho no Brasil e nos Estados Unidos em 1995 (Índice: E.U.A. = 100) e crescimento anual da produtividade entre 1991 e 1995, em alguns setores selecionados.

SETOR PRODUTIVIDADE RELATIVA NO BRASIL EM 1995 CRESCIMENTO ANUAL DA PRODUTIVIDADE ENTRE 1991 E 1995
SIDERURGIA 68 10%
TRANSPORTE AÉREO 47 10%
TELECOMUNICAÇÕES 45 11%
BANCOS DE VAREJO 40 9%
AUTOMOBILÍSTICO - MONTADORAS 36 17%*
CONSTRUÇÃO RESIDENCIAL 35 3%
AUTOPEÇAS 22 17%*
ALIMENTOS PROCESSADOS 18 12%
VAREJO DE ALIMENTOS 14 1% a 7%

*os dados de crescimento da produtividade não estavam disponíveis de forma desagregada para montadoras e autopeças
Fonte: adaptado de Produtividade: A Chave do Desenvolvimento Acelerado no Brasil, McKinsey & Company com assessoria do Comitê Consultivo Acadêmico composto de Marcelo Abreu, Edmar Bacha e José Scheinkan, São Paulo, Washington, D.C., Março de 1998, pág 5.


Os dados e conclusões acima são ainda corroborados por outro recente estudo promovido pela CNI e coordenado por Dagoberto Lima Godoy (1997, citado em Fischer, 1998). Segundo este, o crescimento da produtividade na indústria de transformação, entre 1991 e 1996, foi de 65%. Além do que, vários outros indicadores de eficiência produtiva teriam apresentado melhoras significativas, conforme mostrado no quadro 3 a seguir:

Quadro 3: Evolução do Comportamento de Indicadores de Eficiência da Indústria Brasileira (1990-1996)

INDICADORES 1990 1993 1996
Retrabalho interno (% de peças ou produtos) 30% 12 a 20% 3,65%
Gastos com assistência técnica (% do faturamento) 2,7% 2% 0,98%
Quebras de máquinas (% de tempo parado) 40% 21% 6,6%
Melhorias contínuas (% operário envolvidos) 0,1% 1 a 2% 2,5%
Rotatividade do estoque (no de vezes por ano) 8 8 a 14 13
Tempo médio de entrega (dias) 35 20 19
Investimento em Educação e Treinamento (% do faturamento) <1% <1% 0,6%
Níveis hierárquicos 10 a 12 4 a 8 5

Fonte: Godoy, Dagoberto Lima, "Qualidade e Produtividade na Indústria Brasileira", CNI, 1997, in: Fischer (1998, pág. 89).


Fischer (1998), por sua vez, baseando-se nas conclusões da pesquisa do BNDES, CNI e SEBRAE, "Qualidade e Produtividade na indústria brasileira" (1996) e comparando-as aos resultados obtidos em trabalho anterior (ECIB, 1993), argumenta que as estratégias reativo-defensivas das empresas brasileiras estavam cedendo espaço, paulatinamente, para novas estratégias mais relacionadas com o mercado. Isto quer dizer que o simples foco na redução de custos e racionalização da produção começa a dar lugar, principalmente nas grandes empresas de setores de ponta (automobilístico, eletroeletrônico, químico etc), a preocupações com o atendimento das necessidades dos clientes, com a melhoria da qualidade e redução do prazo de entrega. O número de certificações ISO 9000 seria mais um fator corroborador das afirmações acima, tendo crescido de 18, em 1990, para 1635 apenas nos três primeiros meses de 1997.

De outro lado, e, muito provavelmente, relacionado aos baixos índices de produtividade do país, está o fato, de que, mesmo em comparação a outros países em desenvolvimento, a escolaridade média do brasileiro é muito baixa (revista Exame, set/97): 3,8 anos, contra 8,7 dos argentinos, 7,5 dos chilenos e 11,0 dos coreanos. Isto, apesar dos enormes progressos nas últimas décadas. Outra fonte (McKinsey & Company, 1998) mostra que a escolaridade média no Brasil cresceu bastante entre 1960 e 1995: de 2,2 anos para 5,3 anos (enquanto a da Coréia teria ido, no mesmo período, de 6,2 anos para 12,3 anos).

Além disso, verifica-se que, a exemplo das estatísticas americanas, apresentadas na seção anterior, existe também no Brasil uma grande correlação entre nível de escolaridade, taxa de ocupação e rendimento financeiro do trabalho (quadro 4). Quadro 4: Taxa de Ocupação (% de pessoas que contribuem para a Previdência)

ANOS DE ESTUDO TAXA DE OCUPAÇÃO VALOR DO RENDIMENTO POR HORA (R$)
Sem instrução 50, 08% 0,94
1 a 3 anos 44,50% 1,37
4 a 7 anos 48,12% 2,46
8 a 10 anos 56,66% 3,02
11 anos 68,51% 5,11
12 anos ou mais 77,62% 14,11

Fonte: IBGE - (Pesquisa de Padrão de Vida - PPV, realizada entre março de 1996 e março de 1997)


Já Lau et alii (apud Figueiredo Neto, 1998), em trabalho publicado em 1993, teriam estimado uma metafunção de produção agregada de cada estado do Brasil, para o período compreendido entre 1970 e 1980, levando em consideração os seguintes fatores: capital, trabalho e educação média. De grande relevância para os argumentos do presente trabalho foi a constatação destes autores de que cada ano adicional de estudo se relaciona a um aumento de cerca de 20% no PIB, colocando, portanto, empiricamente, a escolaridade como fator decisivo para o desenvolvimento econômico do país.

Altamente preocupante, então, são os indicadores de escolaridade do país. A mesma Pesquisa de Padrão de Vida do IBGE (www.ibge.gov.br) mostra, por exemplo, que:

  • 63,8 % dos trabalhadores não têm sequer o 1o grau completo;
  • 16,3% não têm nem um ano de estudo;
  • apenas 9,16% possuem mais de 12 anos de estudo.

Outro trabalho (Rossetti, 1997) destaca também estatísticas bastante inquietantes sobre a situação da educação e da qualificação profissional no país:

  • apenas 3,7 % do PIB é gasto em educação;
  • 44% dos alunos da 1a série do primário repetem de ano;
  • 20% da população com mais de 14 anos é analfabeta (18 milhões de pessoas);
  • o tempo médio para se completar o 1o grau é de 11,2 anos;
  • 53% da população com mais de 10 anos tem menos de 5 anos de educação;
  • apenas 4% da população tem diploma universitário.

Há, também, que se destacar a mudança no perfil da distribuição da força de trabalho no país, nas duas últimas décadas. Neste período, houve grande aumento no número de pessoas empregadas no setor de serviços, pequena redução da participação da indústria na geração de emprego e expressiva redução da importância da agricultura com empregadora de mão-de-obra (quadro 5).

Quadro 5: Distribuição da Força de Trabalho

SETOR PARTICIPAÇÃO 1980 PARTICIPAÇÃO 1997
Serviços 39, 4 % 62,0 %
Indústria 23,9 % 22,4 %
Agricultura 36,7% 15,6%

Fonte: Organização Internacional do Trabalho (1998)


É evidente que o desafio para o país e para as empresas continua bastante elevado, se tivermos como objetivo continuar a competir nos setores mais intensivos em conhecimento e, portanto, de maior valor agregado e de melhores salários. Conclusões de recente estudo (ECIB, 1993, apud Stal, 1997), por sua vez, mostram a necessidade de o Brasil aumentar, rapidamente seus investimentos em capacitação tecnológica:

  • "a inovação depende cada vez mais de níveis crescentes de gastos em P&D, logo pagamentos maiores serão necessários para o licenciamento e outras formas de acesso a novas tecnologias;
  • os países desenvolvidos estão modificando seus sistemas de propriedade intelectual, incluindo novas áreas, como software e biotecnologia e colocando pressões sobre os países em desenvolvimento para que também adotem tais sistemas;
  • as características das novas tecnologias fazem com que seja mais difícil transferi-las, dado o alto grau de conhecimento a elas associado;
  • o número de acordos de cooperação, nacionais e internacionais, entre empresas, para o desenvolvimento de novas tecnologias está aumentando significativamente. Isso tem dificultado o acesso dos países em desenvolvimento que, raramente, são chamados a participar de tais acordos, uma vez que a cooperação técnica se dá, em geral, entre empresas que investem fortemente em P&D próprio e possuem nível tecnológico similar."
De acordo com este cenário, é amplamente reconhecido que os níveis de investimento em P&D no país ainda são muito pequenos, ou seja, menos de 1% do PIB (quadro 6), em comparação a índices superiores a 2% ou até mesmo 3%, nos países desenvolvidos. Embora ainda muito baixos, há que se destacar o grande crescimento destes com relação ao início da década de 80, quando estes investimentos se situavam em torno de 0,4% do PIB. Mais significativo, ainda, foi o aumento da participação das empresas privadas de 0,04% do PIB para 0,20% do PIB nestes últimos 15 anos (Sbragia, Kruglianskas e Camargos, 1998).

Quadro 6: Dispêndios em Ciência e Tecnologia - Brasil
US$ bilhões de 1995

Fonte: FIBGE, ANPEI e MCT


Mais recentemente, o montante dedicado a estas rubricas parece ter dado um novo salto em função dos novos desafios impostos pela abertura da economia e, também, em função de vários instrumentos de política industrial e tecnológica introduzidos nos últimos anos. Recente pesquisa do MCT/CNI (quadro 7), por exemplo, mostra que as empresas brasileiras estão planejando aumentar, sensivelmente, seus investimentos nesta área. Neste mesmo sentido, as informações do banco de dados da ANPEI, relativas a 140 empresas líderes, também mostravam um pequeno crescimento no total destes investimentos, entre 1993 e 1995, além de significativo aumento da qualificação dos mesmos, ou seja, mais gastos com pesquisa básica, pesquisa aplicada e desenvolvimento experimental (Sbragia, Kruglianskas e Camargos, 1998).

Quadro 7: Evolução esperada nos investimentos em P & D no país
% de P & D declarado, % das empresas

Fonte: Resposta de 1012 questionários enviados a empresas de 20 setores, in: "Estudo da Demanda do Setor Privado por Investimento em Tecnologia 1997-2001" - MCT / CNI, 1997.


2.3 O conhecimento e a capacidade de inovação como determinantes da competitividade empresarial

Today it is almost heresy to suggest that scientific knowledge is not the sum of all knowledge... the problem is precisely how to extend our utilization of resources beyond the span of the control of any one mind; and, therefore, how to dispense with the need of conscious control, how to provide inducements which will make the individuals do the desirable things without anyone having to tell them what to do.
(Frederick A. Hayek, The Use of Knowledge in Society, 1945)
Frederick Hayek, um dos expoentes do pensamento econômico liberal, já abordava, com grande propriedade, em 1945 a questão da importância do conhecimento difundido na sociedade e nas organizações e, de uma certa forma, já formulava alguns dos princípios fundamentais das organizações atuais. Analisando a importância do sistema de preços de mercado e a questão do "problema econômico da sociedade" ele conclui que estes não se referem simplesmente a uma questão alocativa, mas sim à questão de como assegurar que os recursos (e conhecimentos) conhecidos individualmente sejam melhor utilizados. Neste sentido, ele se manifesta como um árduo defensor do conceito da tomada de decisão descentralizada e um crítico feroz das visões "preconceituosas" que diziam que todo o conhecimento relevante se resumia ao conhecimento científico e tecnológico.

Os trabalhos mais recentes de Peter Senge (1990) parecem ter sido os responsáveis pela popularização da questão do aprendizado organizacional e, além disso, por terem despertado um renovado e focado interesse na gestão do conhecimento. Foi Peter Drucker, por sua vez, que cunhou, há 4 décadas, o termo knowledge worker6 e foi, provavelmente, um dos primeiros teóricos organizacionais a chamar a atenção e a avaliar as implicações para o fato de, tanto o trabalho técnico, como o não técnico serem, cada vez mais, baseados no conhecimento. Desde então, Drucker continua a destacar que se avançou muito pouco na formulação de uma teoria econômica que leve em consideração o conhecimento como principal recurso para a produção de produtos e serviços (Drucker, 1993). Além disso, a própria gestão deste tipo de profissional continuaria a ser um dos principais desafios gerenciais:

We know that the organization is rapidly shifiting from one of manual workers to knowledge workers. But we know pitfully little about managing knowledge workers and knowledge work, integrating it and measuring it. And despite all the research done in the last 50 years we really so far know very much about how to quench motivation and very little about how to kindle it.
(Peter Drucker, in: Badawy, 1988, pág 24)
Reconhecendo este desafio, algumas empresas estão, entretanto, criando funções centrais como a do "Knowledge Manager" ou "Gerente do Conhecimento". A bibliografia recente destaca, neste esforço, as grandes empresas de consultoria internacional como McKinsey & Company, Price Waterhouse, Andersen Consulting, além de algumas outras empresas como Skandia AFS - uma seguradora sueca, WM-Data - uma das maiores empresas de software européias, Canadian Imperial Bank of Commerce, Hewlett-Packard, GE Lighting, Dow Chemical, Monsanto, Coca Cola, Hoffman-LaRoche etc. (Botelho, 1997; Edvinsson & Malone, 1997; Hope & Hope, 1997; Sveiby, 1997; Davenport & Prusak, 1998; entre outros)

Para Davenport & Prusak esta nova função envolve habilidades tanto soft, como hard, ou seja, habilidades relacionadas à implementação de uma cultura organizacional de aprendizado e habilidades relacionadas ao desenvolvimento da infra-estrutura facilitadora e é baseada em grande medida na alavancagem dos recentes avanços da informática. Esta nova função, por outro lado, estaria sendo institucionalizada, na prática, de três formas distintas: 1. de forma independente, na alta administração; 2. associada à área de RH; 3. associada à área de informática. Os melhores resultados estariam sendo conseguidos pela primeira alternativa e requerem pessoas com background e experiências bastante completas e diversificadas (técnico, administração de RH e financeiro).

Existe ainda bastante controvérsia sobre os resultados de tais iniciativas. Se avaliarmos que boa parte delas visa, de certa forma, alavancar o potencial de contribuição intelectual dos trabalhadores, isto não chega a ser surpreendente. Não obstante tal observação, é importante se destacar o fato desta preocupação ter, finalmente, se tornado uma preocupação explícita e formalizada, pelo menos em algumas grandes empresas de significativa participação no ambiente empresarial internacional.

Além disso, várias grandes empresas americanas e européias estão criando suas próprias universidades - exs: Disney, Microsoft, GE, Motorola, McDonald's, enquanto algumas das principais universidades do mundo (Berkeley, Harvard , Stanford, Instituto de Ciência e Tecnologia de Hokuriku - Japão) vêm criando cadeiras como a "Knowledge" e "Creativity Management".

Com relação à questão da relevância da gestão da criatividade no ambiente empresarial, há que se analisar os trabalhos de John Kao (1996), da Universidade de Harvard, um dos primeiros pesquisadores e autores a enfocar tal tema, inclusive como disciplina de pós-graduação em administração nas Universidades de Harvard e de Stanford. Para ele, a noção de criatividade na empresa está intrinsecamente associada à noção de criação de valor. E o seu estímulo é um dos atributos essenciais da função gerencial:

For managers, the nurture and promotion of creativity is no longer an elective. It's part of the required curriculum. In today's new economy the minds of gifted people are what truly distinguish one organization from another...But minds alone, however prolific with fresh ideas, are nothing without processes specifically designed to translate these fresh ideas into valued products and services (John Kao, 1996, pags XIII-XIV)

Por outro lado, para que o conhecimento produza vantagem competitiva sustentável, as empresas precisam gerenciá-lo de forma pró-ativa, tornando-o independente de qualquer funcionário. Isto só acontece, de fato, no momento em que as organizações são capazes de capturá-lo através de seus sistemas, processos, produtos, regras e cultura (Myers, 1996).

A gestão da inovação e do conhecimento assume, pois, um elevado grau de importância e relevância para as empresas de todos os setores da economia. O conhecido estudo de Stalk & Hout (1990), Competing Against Time, mostra que a velocidade de introdução de novos produtos está diretamente relacionada a posição de mercado, lucro e custos. Já Hope & Hope (1997), por exemplo, destacam recente estudo de Reichheld (1996), envolvendo mais de 100 empresas intensivas em tecnologia, que mostrou uma forte correlação entre liderança de mercado e capacidade de inovação (quadro 8, a seguir):

Quadro 8: Relação entre posição de mercado e capacidade inovadora

POSIÇÃO DE MERCADO % DAS VENDAS ADVINDAS DE PRODUTOS LANÇADOS NOS ÚLTIMOS 5 ANOS
Líder 49,1%
Terço superior 33,8 %
Terço médio 26,9 %
Terço inferior 10,7 %

Fonte: Reichheld, F.F. The Loyalty Effect, Harvard Business School Press, 1996, apud Hope, J. & Hope, T. Competing in the third wave: the ten key management issues of the information age. Harvard Business School Press, Boston, 1997.


No estudo "Cien Empresas Innovadoras en Iberoamerica", realizado dentro no contexto do programa CYTED-D (1992), também se verificou, para os anos entre 1989 e 1991, uma elevada correlação entre esforço tecnológico, exportações e margens de lucro. Em particular, de forma semelhante ao estudo acima, verificou-se que as empresas mais rentáveis eram aquelas com maior percentagem de vendas advindas de inovações geradas internamente.

Nos setores de serviços, em particular, a importância da gestão do capital intelectual com relação à gestão dos ativos físicos é intrínseca e amplamente visível. No setor de manufatura, embora em menor proporção, isto também se verifica, pois são as atividades como P&D, desenho de processo, desenho de produto, logística, marketing ou gerenciamento de sistemas que, em boa medida, definem o diferencial competitivo das empresas (Quinn et alii, 1996; Hope & Hope, 1997).

A importância da gestão do conhecimento, tanto no setor de serviços, como na indústria, fica ainda mais evidente quando se verifica que os sistemas de produção, nestes dois setores, estão cada vez mais semelhantes7 (Zarifian & Salerno, 1997):

  • "a produção de bens industriais comporta, cada vez mais, uma dimensão de produtos e serviços;
  • mas, inversamente, existe um movimento de industrialização da produção dos serviços, e numerosos serviços são sustentados por bens industriais."

Tal aproximação, argumentam Zarifian e Salerno, é decorrente do fato de que ambos os sistemas estão, na verdade, enfrentando os mesmos desafios, ou seja:

  • atender aos diferentes usos dos bens e serviços em um ambiente de rápida transformação;
  • obter vantagens competitivas estratégicas sobre a concorrência;
  • coordenar sistemas em contato direto com os clientes e destinários, com sistemas de infra-estrutura e apoio.

Quinn (1990) chegou mesmo a questionar se algumas empresas - em setores como farmacêutico, computadores, vestuário, petróleo, alimentos, equipamentos de escritório e de automação - deveriam de fato ser classificadas como empresas industriais, uma vez que a maior parte de seus sistemas de custos, valores agregados, lucros e vantagem competitiva advêm de suas atividades de serviços. Para este autor, empresas como Xerox, IBM, Apple, Honda, Chrysler etc deveriam ser chamadas de "intellectual holding companies", ou holdings do conhecimento. Já Drucker (1993) chega mesmo a dizer que o verdadeiro produto da indústria farmacêutica é o conhecimento, e que os comprimidos e medicamentos são apenas embalagem para o conhecimento.

Neste contexto, as pesquisas de Quinn (1990) mostram que mesmo as empresas tidas como industriais dependem essencialmente de umas poucas habilidades ou competências-chave para desfrutar de vantagens competitivas consideráveis. Ele cita o caso da Procter & Gamble, cujo sucesso é baseado em dois conjuntos centrais de habilidades: 1) competência em P&D em oito tecnologias-chave; 2) habilidades muito superiores à concorrência em marketing e distribuição.

Segundo esta visão, o fator crítico de êxito empresarial passa a ser a capacidade das empresas em dominar um conjunto limitado de habilidades que são importantes para seus clientes ou consumidores. Por conseguinte, a visão da concorrência também muda. Concorrentes passam a ser as empresas que têm uma base de habilidades-chave semelhantes e não aquelas que, simplesmente, têm uma linha de produtos similar.

Na mesma linha, os estudos de Aaker (1989), Hamel & Prahalad (1994) e Pfeffer (1994) também destacam a gestão e alavancagem de habilidades-chave como elemento fundamental para o estabelecimento de vantagens competitivas sustentáveis. Conforme estes autores, a organização e o gerenciamento da força de trabalho são a principal vantagem competitiva, por ser difícil de ser imitada.

Para sustentar esta tese, Pfeffer, por exemplo, contrapõe o sucesso empresarial de empresas como Wal-Mart, Southwest Airlines, Tyson Foods, Plenum Publishing e Circuit City (grandes empresas de maior retorno aos acionistas entre 1972 e 1992) aos argumentos do já clássico modelo competitivo de Porter8 e às tradicionais fontes de sucesso empresarial, como tecnologias estáticas de produtos e processos, mercados regulados ou protegidos, economias de escala, etc. Segundo este autor, estas empresas tiveram enorme sucesso em função de sua cultura organizacional e da maneira como gerenciam sua força de trabalho, mesmo a despeito do fato de, em 1972, ainda terem pequeno porte, quase nenhuma vantagem de escala e pertencerem a setores industriais que, durante estes 20 anos, foram caracterizados por um grande aumento do nível de competição, reduzidas barreiras à entrada, virtualmente nenhuma tecnologia proprietária e vários produtos e serviços substitutos.

Nonaka & Takeuchi (1995), por sua vez, após estudar em detalhe várias empresas japonesas de grande sucesso como Honda, Matsushita, Sharp, Kao etc, refutam explicações reducionistas, que creditam o sucesso das empresas japonesas a fatores ligados a fontes baratas de financiamento, excelência em manufatura, relações intrincadas entre empresas e governos, práticas de administração de RH etc. Para estes autores, o sucesso destas empresas ocorre, primordialmente, em função da capacidade das mesmas em criar conhecimentos organizacionais, que resultam em constantes inovações em seus produtos, serviços e sistemas gerenciais.

A construção de "learning organizations", por sua vez, se evidencia como uma decisão estratégica das mais importantes, à medida que o conceito de estratégia perde o seu caráter tradicional, determinista e de posicionamento e ganha um caráter muito mais de ação e tolerância ao erro, tático, de alavancagem baseada em habilidades centrais, de formação de alianças e de incentivo à tomada de riscos (Hamel & Prahalad, 1994; Mitzenberg, 1989).

A conseqüência para as empresas e países deste novo ambiente competitivo, segundo Thurow (1997), é que quem quiser ser competitivo e, conseqüentemente, pagar altos salários, manter altas taxas de lucratividade e elevado padrão de vida, terá que desenvolver capacidades e habilidades para participar destas indústrias de poder "cerebral". Isto significa montar um sistema de P&D que coloque o país na vanguarda tecnológica, ter uma estratégia educacional muito ampla e que leve em consideração que a contribuição dos níveis mais baixos da organização, mesmo nas indústrias de ponta, é fundamental.

De fato, recente trabalho do IPEA (1997) conclui que os governos dos países mais avançados estariam aumentando o investimento na promoção da inovação, através de políticas visando a: (i) uma rápida identificação de oportunidades tecnológicas futuras; (ii) um aumento da velocidade na qual a informação flui através do sistema; (iii) uma rápida difusão de novas tecnologias; (iv) um aumento na conectividade das diferentes partes constituintes dos sistemas de C&T, para ampliar e acelerar o processo de aprendizado.

O desafio, é bom frisar, não envolve apenas um aumento expressivo nos investimentos em P&D, educação, treinamento ou tecnologia de informação, pois tão ou mais importante é a produtividade destes investimentos e isto é, em boa medida, determinado pela competência gerencial (Hope & Hope, 1997) e pela capacidade de alavancar recursos escassos (Hamel & Prahalad9, 1994). De fato, em trabalho anterior (Terra, 1992), após extensa revisão da literatura, já destacávamos a dificuldade intrínseca em se estabelecer uma relação causal entre o volume de investimentos em P&D e desempenho empresarial.

O trabalho do IPEA (1997), por outro lado, ao mesmo tempo que destaca que, em vários setores, os gastos anuais em P&D das empresas líderes já são maiores que seus investimentos em capital fixo, também alerta que a intensidade do conhecimento na produção industrial já atingiu níveis tão elevados, que os investimentos em P&D são apenas uma parte de um conjunto de investimentos necessários para gerar a mudança tecnológica na indústria. Em particular, as competências em engineering, baseadas, em boa medida, em elementos do conhecimento menos padronizados e mais tácitos e associadas ao crescimento da atividade inovativa localizada, estariam aumentando em resposta aos vários aspectos da intensa mudança nos processos produtivos.

Finalmente, para Thurow, as empresas "mais avançadas" são aquelas que estão derrubando as paredes funcionais e criando uma "teia impecável" entre invenção, projeto, fabricação, vendas, logística e serviços, e permitindo que as decisões sejam tomadas nos níveis mais baixos da organização. Em função disso, estariam mudando também as expectativas com relação à qualificação dos empregados mais baixos da hierarquia e com relação ao papel da gerência. Espera-se que os empregados sejam muito melhor qualificados e que a gerência, principalmente a situada no topo das organzações, seja capaz de comunicar as estratégias da empresa, de forma que aqueles que estão nos níveis hierárquicos inferiores possam tomar decisões alinhadas às mesmas.

Vários autores, entre os quais Tofler (1985) e Zarifian (1996), argumentam, por outro lado, que as demandas de maior participação e cooperação forte10 não fluem do ideológico para a política, mas sim do reconhecimento de que os sistemas atuais caracterizados por estruturas verticais rígidas, não podem reagir eficientemente ao meio em rápida transformação. A aceleração da transformação é cada vez maior, enquanto a complexidade e o número de variáveis técnicas, econômicas, sociais, políticas e culturais que afetam a vida da empresa, fazem com que, para serem eficazes, as decisões devam ser tomadas em níveis cada vez mais baixos da organização.

A despeito destas ressalvas e desafios, fica evidente, contudo, pelo exposto ao longo deste capítulo, que a teoria organizacional e as necessidades impostas pelo ambiente têm evoluído no sentido de promover uma crescente participação da contribuição intelectual dos trabalhadores e uma gestão pró-ativa da criatividade, da aprendizagem e do conhecimento. Neste sentido, o quadro 9, a seguir, elaborado por Karl Sveiby (1997), resume, a partir de modelos "ideais e opostos", algumas das mudanças que estão ocorrendo na economia e no interior das organizações. Por outro lado, muitas das conclusões acima sobre estruturas organizacionais, como se tentará mostrar ao longo deste trabalho, vêm sendo desenvolvidas há várias décadas. Assim, as conclusões, recomendações e, principalmente, as prescrições acima devem ser avaliadas e aplicadas com cuidado. Primeiro, porque, em sua grande maioria, foram desenvolvidas nos países do primeiro mundo e, segundo, como ressaltam Fleury & Fleury (1995), os macrocondicionantes econômicos, políticos, culturais e a própria história das organizações condicionam a adoção de qualquer receita pronta para o desenvolvimento de uma cultura de aprendizagem e inovação.

Quadro 9: Os princípios da Organização baseada no Conhecimento

ITEM PARADIGMA DA ERA INDUSTRIAL PARADIGMA DA ERA DO CONHECIMENTO
Pessoas Geradores de custos ou recursos Geradores de receitas
Fonte de poder dos gerentes Nível hierárquico na organização Nível de conhecimento
Luta de poder Operários versus Capitalistas Trabalhadores do conhecimento versus gerentes
Principal responsabilidade da gerência Supervisionar os subordinados Apoiar os colegas
Informação Instrumento de controle Ferramenta para comunicação; recurso
Produção Operários processando recursos físicos para criar produtos tangíveis Trabalhadores do conhecimento convertendo conhecimento em estruturas intangíveis
Fluxo de informação Através da hierarquia organizacional Através de redes colegiadas
Gargalos na produção Capital financeiro e habilidades humanas Tempo e conhecimento
Fluxo de produção Direcionado pelas máquinas; seqüencial Direcionado pelas idéias, caótico
Efeito do tamanho Economia de escala no processo de produção Economia de escopo das redes
Relações com os clientes Unidirecional através dos mercados Interativa através de redes pessoais
Conhecimento Uma ferramenta ou recurso entre outros O foco do negócio
Propósito do aprendizado Aplicação de novas ferramentas Criação de novos ativos
Valores de mercado (de ações) Devidos, em grande parte, aos ativos tangíveis. Devidos, em grande parte, aos ativos intangíveis.
Economia Baseada em retornos decrescentes Baseada em retornos crescentes e decrescentes.

Fonte: Adaptado de Sveiby, K.E. The New Organizational Wealth: Managing and Measuring Knowledge-based Assets, Berrett-Koehler Publishers, Inc., San Francisco, 1997, pág. 27.


4. Davenport & Prusak (1998) argumentam que para a Gestão do Conhecimento o aumento do poder de comunicação é muito mais relevante do que o crescimento do poder de processamento. Isto será discutido mais aprofundadamente ao longo deste trabalho e, particularmente, na seção 4.3.   [retornar ao texto]

5. A produtividade foi medida comparando-se as medidas físicas de produção na maioria dos setores (ex: número de linhas/funcionário no setor de telecomunicações; toneladas/funcionário no setor siderúrugico etc). Em alguns poucos setores (varejo de alimentos, alimentos processados e construção residencial ) utilizou-se o conceito de valor agregado ajustado pelo poder de paridade de compra. Dados de Fischer (1998) apontam para taxas de crescimento da produtividade, entre 1988 e 1995, nos mesmos níveis do estudo da McKinsey: automobilística (37%); autopeças (113%) e bancário (49%).   [retornar ao texto]

6. A competição, entretanto, por trabalhadores detentores de conhecimento, é algo muito mais antigo, conforme relato de Landes (1998, pág. 276): "The first move to acquire the "secrets" of the new British technologies was to send out explorers - trained agents to observe, report, and hire away skilled artisans. Thus in 1718-20, at the instigation of a Scottish expatriate, John Law, France launched a systematic pursuit of British technicians: clock and watchmakers, woolen workers, metallurgists, glassmakers, shipbuilders - some two or three hundred people. This campaign so troubled the British that they passed a law prohibiting the emigration of certain skilled craftsmen, the first of a series of such measures covering more than a century and a widening array of trades."[retornar ao texto]

7. Fernando Chaparro (1998), por sua vez, credita à informatização da economia, o fato de setores como o agropecuário e manufatureiro, estarem se aproximando ao de serviços.   [retornar ao texto]

8. É interessante notar a evolução do pensamento de Porter. Em seu livro "A Vantagem Competitiva das Nações" a ênfase de sua análise estava na importância de ambientes de negócios dinâmicos e competitivos. Sem abandonar tais argumentos, em seu mais recente artigo "Clusters and The New Economics of Competition" (1998), ele salienta, muito mais fortemente, as diferentes formas de aprendizado que ocorrem entre as empresas e instituições de uma dada região.   [retornar ao texto]

9. Em seu livro Competing for the Future, estes autores mostram que empresas como IBM, Xerox, Bayer, Philips etc foram muito menos eficazes do que seus competidores japoneses a despeito de investimentos muito maiores em P&D, tanto em termos absolutos, como relativos.   [retornar ao texto]

10. Em seu trabalho sobre a importância da comunicação dentro do ambiente de trabalho, Zarifian (1996), distigngue dois tipos de cooperação: a cooperação frágil (faible) e forte. A cooperação frágil, ou coordenação, é aquela compatível com antigos paradigmas de separação e divisão do trabalho e de responsabilidades. A cooperação forte, ou simplesmente cooperação, envolveria, de fato, o trabalho em conjunto.   [retornar ao texto]


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