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Gestão do Conhecimento

Aspectos Conceituais e Estudo Exploratório Sobre as Práticas de Empresas Brasileiras

José Cláudio C. Terra
Tese defendida na Escola Politécnica da USP para obtenção do título de Doutor em Engenharia de Produção, 26/03/1999

1. Introdução

Esta introdução divide-se em três partes:

1.1 Considerações iniciais
Começamos nosso trabalho tentando situá-lo tanto segundo uma perspectiva histórica, como segundo uma prospectiva futura. Nesse sentido fazemos uma pequena digressão sobre a evolução da teoria organizacional.

1.2 Objetivos do trabalho
Nosso objetivo, aqui, é apresentar os objetivos específicos deste trabalho e realizar uma discussão inicial sobre a relevância dos mesmos, para o avanço da teoria organizacional.

1.3 Estrutura do trabalho
Nesta seção, procuramos ajudar o leitor a compreender a lógica da organização deste trabalho e tentamos, em particular, mostrar possíveis superposições e ligações complementares entre os capítulos. Isto não quer dizer que, ao longo deste trabalho, não busquemos, sempre que possível, situar o leitor dentro de nossa lógica de condução do mesmo. Acreditamos, porém, que, em virtude do caráter sistêmico da teoria organizacional, um delineamento inicial nos ajudará a comunicar como nossas conclusões parciais, em cada capítulo, se encaixam dentro dos objetivos do nosso esforço metodológico.


1.1 Considerações Iniciais

O interesse pela questão da "Gestão do Conhecimento" se reflete na miríade de termos que, de certa maneira, se referem ao mesmo tema. É relativamente difícil encontrar um denominador comum ou mesmo estabelecer limites para a forma como os termos conhecimento, competência e habilidade, criatividade, capital intelectual, capital humano, tecnologia, capacidade inovadora, ativos intangíveis e inteligência empresarial, entre outros, são utilizados e definidos na literatura. Esta dificuldade, contudo, ao invés de ser um problema, aponta antes para a riqueza do tema em questão. São diversos os focos de estudos - ciências econômicas, administração geral, administração de P&D, organização do trabalho, engenharia de produção, psicologia etc - cujas conclusões se superpõem, se complementam e, às vezes, se contrapõem1.

Esta delimitação de conceitos não será, portanto, uma das preocupações deste trabalho. Estaremos utilizando, entretanto, quatro termos com maior freqüência: conhecimento, aprendizado, criatividade e inovação. Gostaríamos, pois, de tentar explicar nossas escolhas. O título desta tese - "Gestão do Conhecimento" - nos pareceu o mais apropriado, porque, para nós, a palavra conhecimento tem um caráter mais abrangente e interdisciplinar. Os termos aprendizado e criatividade, embora bastante populares recentemente, no contexto organizacional, têm suas raízes muito mais fortemente ancoradas na psicologia. Assim, são utilizados, com mais freqüência, quando fazemos referências às conclusões destas disciplinas. Já o termo inovação seria aquele com maior tradição na teoria organizacional. Desta forma, nós o utilizamos, principalmente, quando a discussão gira em torno de práticas gerenciais. Às vezes, estes termos são, entretanto, utilizados de forma intercambiável. De qualquer maneira, pode-se dizer que: paralelamente à evolução das teorias gerais da administração e da produção, a administração de P&D e da inovação desenvolveram-se como um campo de estudo específico dentro das teorias organizacionais. Neste sentido, muito se aprendeu e se teorizou sobre o papel estratégico dos departamentos de P&D das empresas, sobre a melhor maneira de estruturá-los, coordenar suas atividades com os objetivos da empresa e administrar seus projetos e seus recursos humanos altamente qualificados.

Entretanto, à medida que a gestão do conhecimento ultrapassa as fronteiras dos laboratórios, fica claro que as contribuições advindas deste campo de estudo devem ser e, de fato, têm sido apropriadas pelos teóricos organizacionais. Kanter (1997, pág. 9), por exemplo, referindo-se à história da General Motors, conclui que algumas das principais inovações introduzidas pela empresa não estão relacionadas a produtos e processos, mas às decisões de:

  • fabricar carros coloridos;
  • criar o crédito ao consumidor;
  • criar um sistema de distribuição e atendimento diferenciado ao consumidor no caso do projeto Saturn.

Neste mesmo sentido amplo, Chaparro (1998) também chama a atenção para o fato de que a "Gestão do Conhecimento" vai além da gestão da inovação de produto e processo, incluindo, a gestão do conhecimento sobre mercados, sobre tendências nos processos de desenvolvimento tecnológico, sobre legislação relacionada à empresa e outros fatores que determinam a vantagem competitiva da empresa.

É, pois, segundo esta óptica que estaremos tratando a questão da Gestão do Conhecimento, neste trabalho. Isto não quer dizer que não reconheçamos que a inovação de produtos e processos seja a forma mais explícita e importante de geração de conhecimento nas empresas. De fato, grande parte dos conceitos utilizados neste trabalho tem sua origem na literatura diretamente relacionada ao desenvolvimento de processos e produtos. Nossa preocupação, entretanto, é mais ampla: examinamos práticas gerenciais e desenhos organizacionais relacionados à aquisição, geração e difusão de conhecimento no dia-a-dia das organizações.

Apesar do enorme desafio que a gestão pró-ativa do conhecimento representa para os praticantes e estudiosos da administração empresarial, são relativamente poucos os esforços de pesquisa que têm avaliado este tema sob uma perspectiva abrangente, histórica e, principalmente, empírica. Menos freqüentes ainda, em particular, são os trabalhos que levam em consideração os vários campos de estudo que tratam da contribuição e participação intelectual dos trabalhadores.

Isto, a nosso ver, representa um risco importante. Abordagens reducionistas e, especialmente, as prescritivas acabam por gerar soluções simplistas, pouco eficazes e algumas vezes até prejudiciais à compreensão dos fenômenos organizacionais. Há que se levar em consideração alguns aspectos muito importantes: 1) os eventos históricos, assim como as concepções passadas a respeito do mundo e do ser humano determinam, de certa maneira, a realidade atual; 2) as empresas são sistemas sociais abertos sujeitas a uma grande multitude de influências internas e externas; 3) apesar da crescente importância dos sistemas de informação, como repositórios do conhecimento organizacional, são, principalmente, as pessoas que aprendem, criam, detêm e transmitem o conhecimento mais relevante para o sucesso das empresas.

É evidente, pois, que com a abordagem por nós escolhida, assumimos um outro risco: o de tratar alguns tópicos de maneira pouco profunda e, por vezes, dentro de um contexto pouco apropriado (principalmente em alguns campos de estudo, como a psicologia, onde nosso conhecimento é ainda mais limitado).

É de nossa opinião que o conjunto desta tese representa, de fato, uma contribuição original, na medida em que elabora sobre uma visão sistêmica da gestão do conhecimento. Este último ponto, aliás, é amplamente reforçado por nossas discussões ao longo do trabalho: a criação de conhecimento demanda, cada vez mais, diversidade e combinação de diferentes perspectivas2.

De outro lado, é evidente que a teoria organizacional, de certa maneira, na esteira das transformações econômicas e sociais, também evoluiu consideravelmente, tanto em suas concepções sobre as lógicas organizacionais, como em termos de sua compreensão da natureza humana. De fato, como tentaremos mostrar ao longo deste trabalho, a formulação de teorias organizacionais parece estar caminhando, cada vez mais, para uma análise profunda da relação entre estas três variáveis: ambiente econômico, lógica organizacional e natureza humana3.


1.2 Objetivos do trabalho

Este trabalho tem dois objetivos principais:
I. ) elaboração de um mapa cognitivo das várias abordagens relacionadas ao tema gestão do conhecimento;
II. ) analisar a prática da gestão do conhecimento no universo das empresas brasileiras

I. Elaboração de um mapa cognitivo

Além da evolução das teorias organizacionais, são, particularmente, analisadas as contribuições das pesquisas sobre criatividade, aprendizado e inovação que, de uma certa maneira, formam a base conceitual destas propostas mais recentes sobre gestão do conhecimento. De outro lado, procura-se, na medida do possível, estabelecer relações entre os diversos campos de estudo e reconhecer as contribuições e limitações das várias abordagens existentes na literatura.

Isto não quer dizer que o foco seja a análise dos mecanismos de difusão, similarização e legitimização de conceitos e práticas entre diferentes disciplinas ou ainda entre prática e modelo, conforme trabalho de Zilbovicius (1997). O esforço, aqui realizado, parte, na verdade, da constatação da existência de similaridades e complementaridades entre diferentes modelos e abordagens para a gestão do conhecimento. Nossa preocupação, portanto, é muito mais no sentido de explicitar estas relações, de modo a enriquecer e aprofundar as interpretações teóricas da realidade. De fato, este último ponto merece, a nosso ver, uma pequena digressão.

É nossa opinião que muitos dos modelos, conclusões e, mesmo, prescrições da teoria organizacional parecem ser óbvias, quando analisadas a posteriori, tanto para os praticantes, como para os estudiosos desta disciplina acadêmica. De fato, mesmo assuntos relativamente complexos podem ser reduzidos a alguns princípios, regras e postulados. Assim o é no caso das empresas inovadoras. Estas podem ser caracterizadas por um ambiente que estimula a criatividade, por uma prevalência do trabalho em equipes multidisciplinares, por uma direção mais preocupada em estabelecer grandes desafios e definir amplos campos de ação, por permitir o desenvolvimento pessoal e o pensamento sistêmico, etc.

Se tais regras ou postulados fossem, entretanto, tão evidentes como parecem, depois de uma leitura mais descuidada, pouco restaria a fazer no campo da teoria organizacional. A própria realidade, entretanto, mostra que, muitas vezes, o que é "óbvio" atualmente não era discutido em um passado recente. Os exemplos são inúmeros: há pouco tempo atrás, era muito comum se encontrar organizações com dez ou mais níveis hierárquicos; a função controle já teve um lugar central na prática empresarial e nos textos acadêmicos, etc.

Enfim, o que pretendemos fazer com esta pequena digressão foi ressaltar a importância do contínuo enriquecimento da teoria organizacional a partir do enriquecimento das interpretações baseadas em conexões téoricas e relatos da realidade, porque este é o objetivo fundamental deste trabalho, ou seja, ele tem um caráter teórico e prático de acordo com a perspectiva de Dobbin (1994, citado em Zilbovicius, 1997, pág 47), para quem: "A teoria organizacional tem sido um híbrido entre uma ciência social teórica e uma disciplina prática aplicada; conseqüentemente, os praticantes perseguem leis science-like e prescrições".

Este último argumento, de fato, ajuda a compreender como chegamos às nossas conclusões, no capítulo 4, sobre características das empresas que fazem uma gestão pró-ativa do conhecimento. Podemos adiantar que nossas conclusões são o resultado da combinação de: 1) nosso aprofundamento nas abordagens teóricas sobre aprendizado, conhecimento e criatividade, realizadas no capítulo três, e de 2) nossa avaliação da literatura sobre as práticas gerenciais, consolidadas ou emergentes, de empresas reconhecidamente inovadoras e de sucesso.

II. Gestão do conhecimento no Brasil

A gestão do conhecimento associada à gestão do capital humano envolve, como mostraremos neste trabalho, vários aspectos como: a cultura organizacional, o tipo de liderança da empresa, o impacto de estruturas organizacionais, desenho dos espaços físicos, regras e procedimentos, políticas de RH etc. Todos estes são passíveis de serem analisados a partir das percepções dos membros da organização.

É, pois, dessa maneira que analisamos as práticas de gestão do conhecimento no Brasil, ou seja, realizamos um amplo survey de práticas gerenciais a partir da percepção das pessoas que tanto as praticam, como as observam e sofrem suas influências. O questionário, utilizado nesta pesquisa, foi gerado com base nas conclusões e conceitos discutidos no capítulo 4.

Podemos adiantar, entretanto, que esta pesquisa não tem um caráter meramente descritivo da percepção dos gerentes. Partimos de algumas hipóteses sobre práticas de gestão do conhecimento e sua relação com desempenho empresarial e características das empresas (setor de atuação, origem do capital, tamanho etc). Ademais, novas hipóteses e sugestões de pesquisa são formuladas a partir de nossos resultados empíricos.

No capítulo 5, discutimos, detalhadamente, nossas hipóteses de pesquisa, modelo conceitual, critérios de amostragem e metodologia de análise dos resultados.


1.3 Estrutura do trabalho

Em função dos objetivos apresentados, este trabalho se divide em três grandes partes. Os capítulos 2, 3 e 4 são baseados na revisão da literatura; os capítulos 5 e 6 abordam os resultados da pesquisa de campo e o capitulo 7 condensa as nossas principais conclusões e contribuições.

No capítulo 2, procuramos destacar a importância do conhecimento como recurso econômico, a partir da compilação de várias evidências, em boa parte estatísticas, acerca da transformação dos ambientes econômico, social e tecnológico. No final, destacamos as implicações para as organizações, principalmente, de um ponto de vista estratégico.

O capítulo 3 focaliza os micro-processos associados ao aprendizado, ao conhecimento e à criatividade. A princípio, analisamos estes temas desde o ponto de vista do indivíduo para, em seguida, retomá-los, segundo uma perspectiva organizacional. Dessa maneira, procuramos estabelecer um elo de ligação com as discussões mais práticas relacionadas à macro-gestão do conhecimento nas empresas, objeto do capítulo 4.

O capítulo 4 possui um caráter mais prático, na medida em que mescla conceitos e teorias com relatos de práticas (normas, estrutura organizacional, políticas de RH etc) adotadas em vários tipos de empresas. Neste capítulo, temos, pois, a intenção de relacionar os trabalhos de autores, que se preocuparam em analisar as práticas das empresas inovadoras ou de sucesso, com as nossas conclusões e sínteses, efetuadas no capítulo anterior, sobre os micro-processos relacionados ao aprendizado, criatividade e conhecimento.

O capítulo 5 se preocupa em apresentar, detalhadamente, a metodologia, as variáveis e os critérios para a realização da nossa pesquisa de campo. O modelo conceitual apresentado é, em boa medida, resultado da compilação das várias conclusões parciais sintetizadas ao longo do capítulo 4, e analisadas à luz de algumas variáveis estratégicas, discutidas no capítulo 2.

O capítulo 6 apresenta os resultados da pesquisa empírica, ou seja, o perfil da amostra, uma análise descritiva dos resultados e várias análises estatísticas mais avançadas, como análise de agrupamentos e testes não paramétricos. Neste esforço, procuramos não apenas relatar as análises estatísticas, mas, também, realizar várias inferências teóricas e práticas.

No capítulo 7, fazemos uma reflexão final sobre as contribuições gerais e específicas do trabalho. Além disso, apresentamos várias sugestões para outras pesquisas relacionadas ao tema escolhido e terminamos com uma discussão sobre o próprio processo de realização deste trabalho.


1. O risco, evidente, desta abordagem multidisciplinar é o do uso inadequado de conceitos. Uma discussão aprofundada sobre o tema pode ser encontrada em Ramos (1983): "A teoria administrativa e a utilização inadequada de conceitos." [retornar ao texto]

2. Vários ganhadores do Prêmio Nobel têm provado, por exemplo, que sistemas complexos não podem ser deduzidos, nem mesmo teoricamente, a partir de um completo conhecimento de seus componentes (Quinn et alii, 1997). Para uma discussão mais ampla sobre a relação entre a Teoria de Sistemas e a Teoria de Management sugerimos a leitura do artigo Is Management Still a Science? de David Freedman (1992) [retornar ao texto]

3. A título ilustrativo, em função de suas respectivas influências na formação das teorias organizacionais e práticas gerenciais, selecionamos uma citação de Taylor a respeito de suas concepções sobre a natureza humana:
"We never take a human instrument that is badly suited for its work more than we would take a bad machine. We take a proper human animal, just as we would take a proper horse to study." (Taylor, 1912, in Kanigel, 1997, pág. 564). "Only a few hundred years ago a great part of the world's work was done by actual slaves, by men every one of whose acts were completely governed and regulated by other men, their masters. And this slavery was of the very worst type - far worse than that of our country in which the black men (on the whole an inferior race) were made the slaves of white men." (Taylor, 1914, in Kanigel, 1997, pág. 522)
[retornar ao texto]


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