Os desafios públicos demandam soluções inovadoras para lidar ou solucionar desafios cada vez mais complexos e sistêmicos. É com esta perspectiva que advocamos o uso mais intenso da visão, preceitos, métodos e ferramentas da Gestão do Conhecimento na esfera pública. Os desafios da incorporação da Gestão do Conhecimento de forma profunda são enormes, mas também inúmeras são as possibilidades e as oportunidades. As oportunidades advém da combinação dos seguintes elementos: trabalho em rede, larga escala, inteligência coletiva, agilidade e capilaridade.
As organizações públicas têm, ao mesmo tempo, a vantagem e a desvantagem da perenidade. A vantagem é que seus funcionários ainda têm sua vida profissional amplamente ligada à organização e à sua evolução, o que facilita o compartilhamento e a retenção de conhecimento. A desvantagem óbvia é que a ausência de competição, do risco de falência ou perda de mercado levam a uma certa acomodação, o que leva a uma perda do senso de urgência em termos de capacitação, criação de conhecimento e inovação.
Por razões legais específicas brasileiras, nas organizações públicas o conhecimento está muito mais intimamente associado a um cargo específico do que na empresa privada. Afinal, os funcionários prestam concurso público para um determinado cargo, função, etc. Isto gera como consequência indesejada a visão do indivíduo muito mais amarrado ao cargo e à função do que às suas competências e potencial. Numa sociedade em que o aprendizado constante, a lateralidade e a flexibilidade são importantes características de quem trabalha com conhecimento o vínculo estreito com o cargo não é algo desejável. Na Sociedade do Conhecimento, pelo contrário, os indivíduos passam a ser vistos em todo o seu potencial criativo, pelo acúmulo de suas experiências ao longo de sua vida e pelo seu potencial de se engajar em diferentes tipos de comunidades de aprendizado, práticas e projetos.
Neste contexto é fácil tornar a Gestão do Conhecimento no setor público apenas mais um processo burocrático, uma tarefa adicional para os funcionários, e com isso não trazer nenhum valor para a sociedade. A fórmula ou o antídoto para este possível desvio é focar a Gestão do Conhecimento em ações que agreguem diretamente valor aos serviços e produtos oferecidos aos cidadãos. Neste sentido, alguns objetivos da Gestão do Conhecimento podem incluir, por exemplo: facilitar a compreensão e a busca dos serviços do governo disponíveis para o cidadão via Internet, inclusive móvel; a replicação de boas práticas de serviços entre diversas unidades espalhadas pela cidade, estado ou país; compartilhamento de custos de capacitação entre diversas instâncias de governo por meio do uso mais intensivo de tecnologia de informação, etc.
A Web 2.0, em particular, pode significar uma revolução na administração pública se seus princípios, valores e ferramentas forem abraçados em grande escala. Olhando apenas dentro das organizações públicas a Web 2.0 pode vir a chacoalhar alguns preceitos dos modelos altamente hierarquizados e burocratizados da administração pública, pois ela estimula o protagonismo, a informalidade, a horizontalidade e a velocidade. Do ponto de vista do relacionamento com a sociedade, a Web 2.0 pode levar, principalmente, à maior transparência, engajamento e inovação.
As ferramentas da Web 2.0, são, em geral, bastante simples de serem customizadas e, em boa medida, podem ser utilizados aplicativos que estão na nuvem (cloud computing) que permitem reduzir drasticamente a velocidade e custo de implementação, assim como acelerar a curva de adoção. Temos realizado várias pesquisas e participado de alguns projetos nos últimos dois anos que mostram que as ferramentas da Web 2.0 vem sendo adotadas no Executivo, Legislativo e Judiciário em vários países. Soluções podem ser encontradas em praticamente todas as esferas de Governo: na Saúde, Educação, Transporte, Polícia, etc.
De wikis, a blogs ao uso de ferramentas como Facebook temos visto inúmeras aplicações que mostram apenas o início de uma grande curva de adoção que deve ocorrer nos próximos anos. Estamos mudando de patamar de forma semelhante ao que ocorreu na passagem da máquina de escrever para o computador. Mãos, ou melhor cabeça, à obra!
Twitter: @claudioterra